Quando se fala em “trabalho em família”, normalmente vem à mente uma padaria, um mercadinho ou, no máximo, um pequeno escritório. Mas para a família Limeira, o empreendimento era outro: um império de fraudes em concursos públicos, com sede em Patos-PB e alcance nacional.
No centro do escândalo que chacoalha o Concurso Nacional Unificado (CNU), a Polícia Federal descobriu uma verdadeira dinastia da trapaça, em que pais, filhos, tios e sobrinhos operavam um esquema milionário que garantia aprovações em cargos federais de alto prestígio — tudo à base de gabaritos clonados e tecnologia clandestina.
O patriarca do clã, o ex-policial militar Wanderlan Limeira de Sousa, 44 anos, é apontado como o cérebro da operação. Ao lado dele, o irmão Valmir Limeira de Souza, 53, o filho Wanderson Gabriel de Brito Limeira, 24, e a sobrinha Larissa de Oliveira Neves, 25, formavam o núcleo da engrenagem que burlou o CNU de 2024. Todos — convenientemente — foram aprovados para o cargo de auditor fiscal do trabalho, um dos mais cobiçados do país.
Mas o “negócio de família” era ainda mais extenso. Um segundo irmão, Antônio Limeira das Neves, 54, também participava do esquema, segundo revelou a PF. Cada um tinha uma função: havia quem recrutasse candidatos, quem fizesse circular os gabaritos e quem cuidasse da movimentação financeira. Tudo organizado com disciplina quase empresarial — só que o produto era o crime.
As Provas da Fraude:
As conversas interceptadas pela PF mostram o que realmente movia o grupo: dinheiro, poder e vaidade.
Em uma troca de mensagens, Wanderlan cobra de Valmir uma dívida deixada por Antônio, o outro irmão — nada menos que R$ 400 mil. O motivo? A aprovação da filha de Antônio, Larissa, no concurso do CNU.
Em outro diálogo, Valmir avisa:
“Aproveita e fala com ele aí esse negócio da matrícula dia 11, que ele não sabe, não. Aí ele quer que tu explique. Manda lá no WhatsApp dele.”
E Wanderlan, com naturalidade de quem gerencia um esquema logístico, responde:
“É só mandar acompanhar no site. CNU resultado.gov.”
O tom das mensagens é quase doméstico, mas o conteúdo revela um crime em rede, disfarçado sob o verniz da cumplicidade familiar. Entre uma cobrança e outra, os irmãos discutem tanto sobre dívidas quanto sobre as fases do concurso. Um roteiro digno de série policial.




As Contradições:
A investigação também revelou o detalhe que derruba qualquer tentativa de inocência. O irmão Valmir, aprovado no mesmo concurso, não sabia sequer o básico sobre o certame.
Não havia no celular dele qualquer vestígio de estudo, apostila, dúvida ou simulação de prova. Pior: as mensagens registradas pela PF mostram erros grotescos de português, incompatíveis com alguém supostamente preparado para disputar uma vaga de auditor fiscal.
A suspeita é clara: quem passava não era quem estudava — era quem pagava e se conectava à teia da fraude.
Enquanto a PF segue rastreando os aparelhos e as contas da quadrilha, uma conclusão já é inevitável: o CNU 2024 virou palco de uma farsa familiar, um negócio de sangue e gabarito que misturou laços de parentesco com tecnologia criminosa.
E se antes a cola era um sussurro no ouvido, agora é um império eletrônico sustentado por lealdade e ambição — com sobrenome, endereço e árvore genealógica.
Fonte: leia58.blog Com informações de Letícia Guedes/Mirelle Pinheiro – Metrópoles

